Compartilhe “Minha dor não é mimimi”, diz pai que perdeu filho na pandemia em fala à CPI

Seis parentes de vítimas da covid-19 deram depoimentos à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Covid no Senado nesta 2ª feira (18.out.2021). Márcio Antonio do Nascimento Silva, que perdeu o filho de 25 anos em abril de 2020, declarou que sua dor “não é mimimi” –expressão usada para classificar uma reclamação considerada irrelevante.

Ele lamentou que seu filho não teve a chance de se vacinar, pois, não havia imunizantes suficientes à época e disse que gostaria que o presidente Jair Bolsonaro pedisse desculpas, “porque não é uma questão de política”.

“A minha dor não é mimimi. Não é, não é. Dói para caramba mesmo. Dói, dói. Entendeu? Então, não aceito que ninguém aceite isso como normal. Não é normal, não é normal, não é. Sabe, não é normal! Essa dor não é mimimi… Não importa que meu filho tenha 25 anos, isso não é relevante; não importa que a mãe dela tenha 80: são vidas, são pessoas que a gente ama, como todos aqui amam.”

Os convidados contaram, em meio a lágrimas e críticas, principalmente ao governo federal e a negacionistas, como enfrentaram a pandemia e como cuidaram de seus familiares. Explicaram como era ter que se despedir do familiar sem nenhum contato, com os corpos dentro de sacos e sem tempo para as cerimônias, pela quantidade de mortos que precisavam ser enterrados.

“Eu acho que nós merecíamos um pedido de desculpa, nós merecíamos um pedido de desculpa, da maior autoridade do país, entendeu? Porque não é questão política, se é de um partido, se é de outro, nós estamos falando de vidas de pessoas. Cada depoimento aqui, eu acho que, em cada depoimento, um sentiu o depoimento do outro e acrescentou o que o outro tinha para falar”, declarou Márcio.

Kátia Shirlene Castilho dos Santos perdeu o pai e a mãe idosos por conta da covid-19. Ela contou aos senadores os momentos que passou em São Paulo cuidando da mãe, como quando precisou molhar um algodão para passar nos lábios da idosa numa tentativa de matar a sede que ela sentia. Internada com o pulmão comprometido, não podia tomar sempre água para não se engasgar.

“Por isso é que eu falo que, quando a gente vê um Presidente da República imitando uma pessoa com falta de ar, isso, para nós, é muito doloroso. Se ele tivesse ideia do mal que ele faz para Nação, além de todo o mal que ele já fez, ele não faria isso”, afirmou.

O presidente Jair Bolsonaro imitou duas vezes uma pessoa com falta de ar. Em maio, protagonizou a cena em transmissão ao vivo em suas redes sociais. Assim como aconteceu em 18 de março, fez a imitação ao criticar seu 1º ministro da Saúde, Henrique Mandetta, demitido nos meses iniciais da pandemia.

A mãe de Kátia era cliente da seguradora Prevent Senior, investigada pela CPI por supostamente ocultar mortes por covid-19 em estudo do chamado tratamento precoce com remédios sem eficácia comprovada do kit covid. Ela contou que sua mãe recebeu os remédios e foi tratada em casa até que a saturação piorou e foi internada com 50% do pulmão comprometido.

“Nós perdemos o nosso pai, a nossa mãe, os amores da nossa vida e isso me fez… A dor é grande, mas a vontade de justiça é maior, por isso que eu estou aqui hoje. Eu estou aqui hoje para representar essas várias famílias que passaram pela dor que passamos e é por isso que eu fico tão emocionada de estar aqui”, disse Kátia.

Giovanna Gomes Mendes da Silva, de Manaus, também perdeu os pais na pandemia. Ela, que tem 19 anos, agora precisa cuidar da irmã de 11. “Assim que tudo aconteceu, eu senti 2 impactos. Eu e minha irmã, a gente teve um impacto emocional a princípio e, depois, impacto financeiro… Porque a gente tinha os 2 esteios da nossa vida, os 2 pilares, as pessoas que cuidavam da gente, que sustentavam e faziam tudo, a gente não tinha essa responsabilidade.”

Ela demonstrou interesse na ideia da CPI de aprovar uma espécie de pensão especial para órfãos da pandemia de um salário mínimo. Segundo ela, apesar de o valor não ser alto, a ajuda seria muito bem-vinda.

“Essa ajuda de custo que o senhor mencionou é de extrema importância, mesmo porque eu e minha irmã, a gente sentiu isso diretamente, assim como está sentindo até agora”, disse.

Além dos 3 depoentes, a CPI também ouviu Mayra Pires Lima, enfermeira de Manaus que trabalhou na linha de frente da pandemia durante a crise de oxigênio na cidade. Ela perdeu uma irmã para a doença, que deixou 4 filhos. Arquivaldo Leão Leite é uma vítima da covid, que ainda está em tratamento, com graves sequelas. Rosane Maria dos Santos Brandão perdeu o marido, professor da Universidade Federal de Pelotas.

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