Criança Yanomami de 3 anos com malária e pneumonia morre sem atendimento em comunidade, diz Conselho de Saúde

Uma criança indígena de 3 anos morreu nessa quarta-feira (17) com sintomas de pneumonia e malária na comunidade Xaruna, na Terra Indígena Yanomami. O menino estava em estado grave e teve o atendimento médico negligenciado, afirma o Conselho de Saúde Indígena Yanomami e Ye’kuanna (Condisi-YY).

Xaruna é a mesma comunidade que o Fantástico (TV Globo) e o g1 encontraram uma das piores situações dentro da Terra Yanomami, com dezenas de crianças desnutridas e com sintomas de malária.

De acordo com o presidente do Condisi-YY, Júnior Hekurari Yanomami, o menino morreu por volta das 16h30 por não haver combustível suficiente para removê-lo da comunidade. Hekurari fala em “negligência” por parte do Distrito Sanitário Yanomami (Dsei-Y), órgão que responde à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), que por sua vez é ligada ao Ministério da Saúde.

Um pedido de providências foi enviado pelo Condisi-YY nessa quinta-feira (18) ao coordenador do Dsei-Y, Romulo Pinheiro e ao titular da Sesai, Robson Santos.

Procurado, o Ministério da Saúde, por meio do Dsei Yanomami informou a remoção da criança foi solicitada na quarta-feira e que ela possuía indicação de pneumonia.

“Após a autorização da remoção aérea, ao chegar no local a equipe constatou o óbito da menor. O DSEI informa que empenhou todos os esforços para o resgate da paciente e que a denúncia de negligência é infundada”, complementou em nota.

Ao g1, Júnior Hekurari informou que a criança já estava em tratamento contra a malária, no entanto, teve uma piora significativa e as equipes médicas não retornaram à comunidade para dar continuidade aos cuidados.

“Eu conversei com o povo Yanomami e eles relataram que essa criança tinha malária, já estava em tratamento. A equipe de saúde não retornou para a comunidade por não ter mais gasolina para fazer o atendimento médico nas comunidades. Ontem eu fui informado pelos Yanomami que essa criança estava em estado muito grave”, relata o presidente.

Júnior disse que comunicou Dsei-Y, mas foi informado que não havia combustível para a remoção do menino. Segundo ele, o Distrito chegou a mandar um helicóptero, mas a aeronave “não chegou a tempo”.

“Eu comuniquei a equipe do Dsei-Y para remover a criança às 11h e foi autorizado para resgate urgente com a equipe médica do Parima. Mas, não tinha gasolina para se deslocar até a comunidade do Xaruna e depois o Dsei-Y acionou o helicóptero para fazer o resgate. O helicóptero chegou apenas 17h e a criança tinha falecido às 16h30 sem nenhum socorro”.

O presidente relata que o povo Yanomami precisa urgentemente de ajuda e pede interferência do Governo Federal em relação às mortes por malária na terra indígena, diante da “falta de planejamento do Dsei-Y”.


“Não tem mais como ficar assim, pois estamos perdendo muitas crianças. O povo Yanomami está morrendo. Precisamos urgentemente que o Governo Federal ou a Justiça interfira no Dsei-Y. O distrito não tem mais condição de atuar sem planejamento na Terra Yanomami. Não queremos mais perder nossas crianças e nosso povo dessa forma. É uma situação muito triste e o Governo Federal tem conhecimento do que estamos passando. Precisamos de intervenção no Dsei-Y”.

A criança é a terceira a morrer por malária e o quinto caso em três meses na Terra Indígena Yanomami. Em setembro, duas crianças indígenas — uma delas tendo 6 meses de idade — morreram também na comunidade de Xaruna. No dia 4 de novembro, uma adolescente indígena, de 17 anos, morreu na comunidade Yaritopi, que estava em estado grave de malária falciparum. Em 1º de outubro, um pajé da comunidade Makuxi Yano, de 50 anos, morreu sem atendimento.

Maior reserva indígena do Brasil, a Terra Yanomami tem cerca de 28 mil indígenas que vivem em mais de 370 aldeias. Alvo frequente de garimpeiros, desde o dia 10 de maio, a região enfrenta tensão na comunidade de Palimiú em razão de ataques armados de garimpeiros.

A invasão garimpeira causa a contaminação dos rios e degradação da floresta, o que reflete na saúde dos Yanomami, principalmente crianças, que enfrentam a desnutrição por conta do escasseamento dos alimentos.

Em 2020, o ano da pandemia, o garimpo ilegal avançou 30% na Terra Yanomami. Só o rio Uraricoera concentra 52% de todo o dano causado pela atividade ilegal.

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