Doença usada como justificativa para compra de 35 mil comprimidos de Viagra para as Forças Armadas é rara e atinge mais mulheres do que homens

As Forças Armadas aprovaram a compra de mais de 35 mil unidades de sildenafila, medicamento conhecido pelo nome comercial de Viagra. O processo licitatório prevê a aquisição de comprimidos de 25 mg e de 50 mg e, segundo o Ministério da Defesa, o medicamento, usado em casos de disfunção erétil, será empregado no tratamento de militares com hipertensão pulmonar arterial (HPA), o que é aprovado pela Anvisa.

No entanto, especialistas ouvidos pelo g1, nesta terça-feira (12), dizem que, nas dosagens previstas na licitação, o remédio não é adequado para tratar HPA, onde o padrão é o comprimido de 20 mg. Além disso, a doença não é comum e atinge mais mulheres do que homens.

Segundo o médico Marcelo Bandeira, da Sociedade Brasileira de Cardiologia, a sildenafila “faz parte do arsenal terapêutico para tratar hipertensão pulmonar, mas em casos extremamente selecionados, que requerem análise prévia de um especialista”.

“A dose preconizada de sildenafila para tratamento da hipertensão pulmonar é de 20 mg e a dose do Viagra [para disfunção erétil] é 25 mg”, diz Bandeira.

Apenas quando há falta do medicamento de 20 mg é que a Sociedade Brasileira de Cardiologia admite o uso em dosagens maiores, de 25 mg e de 50 mg. A pneumologista Margareth Dalcolmo chama a atenção para o fato da HAP ser “uma doença incomum, que depende de diagnóstico relativamente sofisticado e que acomete gente mais jovem, entre 20 e 40 anos, principalmente, mulheres”.

“Na população geral, a incidência da HAP é pequena: 1 caso para cada 250 mil pessoas, sendo que, na proporção, são 5 mulheres com a doença para apenas 1 homem com a doença”, diz a médica.

O g1 questionou o governo federal para saber quantos militares têm HAP. No entanto, as Forças Armadas disseram não ter esse dado, e orientaram a reportagem para que entrasse em contato com o Exército, com a Marinha e com a Aeronáutica. Até a publicação desta reportagem, não havia resposta.

Segundo a médica Margareth Dalcolmo, única brasileira a fazer parte do comitê de especialistas integrado por 18 peritos, de diversos países do mundo, que fazem recomendações à Organização Mundial de Saúde (OMS) para a aprovação de fármacos, “quem tem HAP não tem condições de servir como militar”. Ela questiona a quantidade de comprimidos previstos na compra.

“Quantos casos justificam essa compra tão grande?”, pergunta a pneumologista.

Como a “sildenafila” é recomendada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o tratamento de hipertensão arterial pulmonar, as Forças Armadas podem fornecer o medicamento para militares da reserva, nos serviços médicos a que eles têm direito. Mesmo assim, a médica explica que “o padrão ouro [para a HAP] é transplante de pulmão”.

A coordenadora da Comissão de Circulação Pulmonar da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT), Verônica Amado, é outra especialista que questiona a dosagem da medicação pedida pelas Forças Armadas.

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