“Já chorei muito porque é difícil ver as coisas acabando”; desabrigados compartilham dura realidade

“2011 aconteceu uma cheia e eu perdi tudo. Há 7 anos, deu um curto circuito pegou fogo, ficamos com a roupa do couro, eu e os meus filhos. E agora em 2022 de novo, e eu estou no mesmo canto, desmancho, faço, vem a doação e eu faço de novo”. Daniela Maria Ramos, de 33 anos, moradora da comunidade do Chiclete, no bairro da Iputinga, Zona Oeste do Recife, não sabe mais quantas vezes precisou recomeçar. Novamente, ela sente a dor de perder os seus pertences com a tragédia das inundações devido às fortes chuvas no Estado.

Lama, pernilongos e o mau cheiro tomam conta da casa de Daniela. Ela, os filhos e o marido saíram com a água no pescoço. A dona de casa mora na comunidade com o marido e os quatro filhos: Rhuan, de 7 anos; Rhodolffo, de 8 anos; Emmilly, de 10 anos; e Darlan, de 15 anos.

Os quatro filhos e Daniela estão abrigados na Escola Municipal Diná de Oliveira, que é uma das 111 instituições que estão recebendo as mais de 9.300 pessoas que estão desabrigadas devido às enchentes em Pernambuco. No local, estão cerca de 600 pessoas, o que equivale a 200 famílias.

A maioria das famílias que estão na escola são das comunidades ribeirinhas Chiclete e Ayrton Senna, na Iputinga. Apesar de Daniela e os filhos estarem no local, o marido precisou ficar na casa para evitar que outras pessoas pegassem os móveis que sobraram.

“Queria pedir uma posição para ver se a gente vai ficar ali ainda, se vão dar alguma coisa para a gente. Toda vez que chove, a gente tem medo, não dorme, fica vendo se vai entrar água para corrermos. Em casa tem muita sujeira, não tem energia, é tão escuro e tem muita muriçoca. Está fazendo sol, tem gente que está lavando já, mas não posso voltar, porque não tem energia. A gente não pode ficar aqui tanto tempo, a gente precisa ir para casa também e as crianças precisam estudar”, pontuou Daniela.

A dona de casa Rosália Batista de Santana, de 43 anos, e a neta de 6 anos, Miriam Victoria, moram na comunidade Sucupira, que também fica na Iputinga. É a segunda cheia que ela enfrenta no local. Ela e a sogra estão, também, abrigadas na escola.

“É a segunda vez que a gente perde tudo. Perdi guarda-roupa, cama, estante, mesa, tudo que tinha dentro da minha casa perdi, só não perdi minha vida, nem a vida da minha neta que tem seis anos e os meus cachorros conseguiram salvar ainda, mas o resto ficou tudo para trás. Aqui estou sendo bem atendida, mas em casa não consegui recuperar nada”.

Rosália relata que, desde a primeira vez que a água entrou na sua casa e ela perdeu tudo, nada mudou e a promessa de uma moradia mais digna ficou no papel. Um habitacional foi construído ao lado das comunidades, mas não foi destinado à população local.

“Desde a segunda cheia, nada mudou, só promessa, e deixaram a gente lá. Temos que ficar lá porque estamos desempregados, eu dependo do auxílio [Auxílio Brasil], sou desempregada, tenho minha neta, vou para onde sem ter lugar? Queria que olhassem um pouco para nós, verdadeiramente, estamos precisando sair dali para não enfrentarmos mais essa situação”, explicou Rosália.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s