Silêncio de Bolsonaro sobre assédio e demora em demitir presidente da Caixa constrange governo

A demora da demissão do presidente da Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães, após denúncias de assédio sexual, causa desconforto entre parte do primeiro escalão do governo. A avaliação é que a cada hora que se passa fica mais difícil blindar o próprio presidente da República da nova crise que abala o Palácio do Planalto e a campanha à reeleição.

Embora aliados tenham aconselhado Jair Bolsonaro a emitir uma nota rapidamente anunciando o afastamento do dirigente do banco, prestando solidariedade às mulheres e repudiando o assédio, Jair Bolsonaro segue em silêncio.

A confirmação da demissão do presidente da Caixa é esperada para a tarde desta quarta-feira (29) em edição extra do Diário Oficial da União (DOU). Entretanto, ainda pela manhã havia uma discussão interna se a exoneração sairia a pedido de Pedro Guimarães ou um ato do presidente da República, como defendiam alguns auxiliares como modo do titular do Palácio do Planalto marcar uma posição no caso.

O temor é que a crise impacte diretamente na eleição principalmente entre o eleitorado feminino, no qual Bolsonaro encontra resistência.

Como mostrou o colunista Lauro Jardim, o governo escolheu como sucessora de Pedro Guimarães Daniella Marques, que desde fevereiro comanda a Secretaria de Produtividade e Competitividade do Ministério da Economia. Ela é apontada como braço-direito do ministro da Economia, Paulo Guedes.

De acordo com integrantes do governo, Bolsonaro, embora já tivesse comunicado que Pedro Guimarães deveria deixar o cargo, não quer ficar com o ônus de demitir uma pessoa próxima. O presidente da Caixa é uma das figuras mais frequentes nas lives e viagens presidenciais.

Aliados do presidente da Caixa ainda defendiam que, apesar das gravidades das denúncias de assédio sexual, Pedro Guimarães poderia ser realocado em outra função do governo. Esse grupo argumentou ainda ao presidente que as denúncias ainda deveriam ser investigadas e sugeriu que o caso poderia ser mais uma pressão da imprensa. O caso, entretanto, é investigado pelo Ministério Público Federal e foi revelado pelo site “Metrópoles”, com uma série de depoimentos em vídeos.

Em conversas reservadas, Bolsonaro sempre elogiou Pedro como um quadro técnico e um ativo positivo para o governo por estar à frente de projetos importantes como o Auxílio Emergencial pago durante a pandemia, o Auxílio Brasil, a entrega de moradias do programa Casa Verde e Amarela, e o projeto que ampliou o número de agências no país.

Nesta terça-feira, por exemplo, Pedro Guimarães esteve com Bolsonaro em Maceió (AL) em cerimônia de entrega de 1.220 moradias. Segundo O Globo apurou, ainda durante a viagem, o dirigente do banco havia sido avisado que a reportagem do site “Metrópoles” com as denúncias de funcionárias sobre assédio sexual seria publicada.

Logo após a publicação, o núcleo duro da campanha alertou o presidente que era preciso dar uma resposta rápida sobre a crise e demonstrar intolerância a casos de assédio. Na noite de terça-feira, Bolsonaro se reuniu com Pedro Guimarães e, segundo interlocutores, disse que as denúncias eram “inadmissíveis.”

A expectativa de integrantes do governo era que na manhã desta quarta-feira o caso já estivesse encerrado, mas foram surpreendidos com Pedro Guimarães discursando em um evento sobre o lançamento do Plano Safra 2022/2023. Acusado de assédio, ele citou que estava na plateia sua esposa, Marcela Guimarães, e a citou no discurso sobre ética:

Quero agradecer a presença de todos vocês, da minha esposa, acho que de uma maneira muito clara, são quase 20 anos juntos, dois filhos, uma vida inteira pautada pela ética, tanto é verdade que quando o assumi o banco, o banco tinha os piores ratings das estatais, dez anos de balanço com ressalvas, uma série de questões que todos vocês sabem ” disse, segundo vídeo obtido pelo Globo.

“Hoje, a gente é um exemplo, tenho muito orgulho do trabalho de todos vocês e da maneira como eu sempre me pautei, em toda a minha vida.”

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