Os jovens que abandonaram as festas e ficaram mais caseiros após a quarentena

Estadão

Se para alguns jovens a volta de eventos presenciais, após dois anos de restrição na pandemia, tem sido agitado e com festas frequentes, outros deixaram as noitadas para trás e ficaram mais caseiros. No isolamento, se conectaram com outros prazeres – como curtir o streaming ou fazer exercícios físicos. Agora são mais seletivos e as saídas têm horário bem definido para acabar.

Muitos associam a mudança a um autoconhecimento motivado por reflexões na quarentena. Eles não necessariamente deixam de sair, mas estão mais exigentes e passam a respeitar mais as próprias vontades. Cedem menos a pressões de amigos ou turmas.

Para especialistas, há vários motivos, entre eles o amadurecimento, marcando o fim da adolescência, e um possível novo padrão comportamental derivado da proteção anticovid. Eles destacam que os jovens caseiros têm a possibilidade de descobrir novos interesses e fortalecer vínculos familiares. Mas, alertam, a reclusão em excesso pode indicar quadros de depressão ou fobia social.

Jovem muda de festeiro para fitness
Estudante de Letras, Dênnis Ferreira, de 23 anos, costumava ir a festas e bares de duas até três vezes na semana. Sextas-feiras e sábados sem sair eram sinônimo de ansiedade. “Era como se eu não estivesse vivendo.”

Os primeiros três meses de pandemia foram difíceis, mas aos poucos se adaptou. “Em casa tem tudo, meu Wi-Fi, minhas músicas, minha TV.” Gosta de ler, ver filmes e séries, além de ouvir músicas. Com o retorno de festas e encontros, até se perguntou se voltaria a frequentar, mas se viu em nova fase. “Achava que isso só ia acontecer aos 28, 30 anos.”

Agora, vai a bares com amigos no máximo duas vezes no mês e volta antes das 22h. “Não tenho mais aquele gás para ficar até de madrugada.”

O consumo de álcool caiu bastante, sobretudo quando começou a musculação em janeiro. “Bebia muito, parecia um Opala”, brinca ele, do Recife.

Atualmente, quase não consome álcool e leva uma vida mais saudável. Ele ainda estima economizar entre R$ 300 e R$ 400 mensalmente. “O bolso agradece.” Os amigos, diz, não estranham. “Estão na mesma ‘vibe’.” Mas, às vezes, cria desculpas para não ir em alguma festa. “Trabalho da faculdade é a clássica”, confessa.

Amiga do fim: estudante quer estar em casa às 23h
Aluna de jornalismo Júlia Duarte, de 22 anos, conta que mesmo amigos que saíram da pandemia com “espírito festeiro” acolhem sua fase mais caseira. Antes, a jovem era a “inimiga do fim”. Hoje, no máximo, ela quer estar em casa às 23h. Baladas e bares foram substituídos por almoços e cafés da tarde.

E, se antes, Júlia perguntava apenas que hora começaria o rolê, o questionário tem, ao menos, duas perguntas extras: que horas termina e o tipo de ambiente. “As pessoas têm o hábito de pensar que foram dois anos em que a gente não viveu. Na verdade, foram dois anos de mudança. Muita coisa se atualizou na minha vida”, reflete a jovem de Fortaleza.

No isolamento, ela descobriu o artesanato e a pintura de pratos – hobbies que ainda cultiva. Outra atividade que virou rotina foram os jogos em família. Júlia voltou a morar com os pais no início da pandemia. “A gente se conectou mais. Começamos a nos ver como iguais e falar mais abertamente sobre as coisas.” Agora, relata, os papéis se inverteram: eles saem mais do que ela. “Guerreiros.”

Voltar cedo também significa mais segurança. “Como mulher, quanto mais tarde, mais perigoso.” Ela não acha que o perigo aumentou, mas sente que sua percepção de risco aumentou. “Quando era mais jovem, tinha um sentimento que nada iria acontecer”, conclui.

Terapia ajuda a entender nova fase
Compreender que não era mais festeira e preferia ficar em casa foi um processo difícil para a estudante de Jornalismo Natália Poliche, de 22 anos, que vive em Florianópolis. “Eu via as meninas que moram comigo saindo, e pensava: ‘sou um desperdício de jovem’.”

Por um tempo, ela achava que tinha medo da covid, mas após sessões de terapia percebeu que a rotina pré-pandemia simplesmente não combinava mais com ela. “E isso não significa que sou menos jovem ou que as pessoas estão vivendo mais. Só vivo de outra forma.”

Natália temia ser considerada “chata” pelas amigas. “Percebi que era mais paranoia minha”, fala. Mesmo sem aceitar todos, ela segue recebendo convites. Agora, quando vai a bares – uma vez a cada duas semanas, no máximo – prefere os mais próximos de casa e fica até as 23h. Antes, era até o estabelecimento fecharas portas.

Terapia também foi fundamental para a atriz baiana Janaina Leal, de 33 anos, que mora em São Paulo. “Achava que minha felicidade estava na rua, em sair o tempo todo. Às vezes, a felicidade está em você mesmo”, aponta. “Hoje, prefiro mais silêncio do que ‘zoada’.” Ela destaca ter aprendido também a dizer não. “Antigamente dizia sim para tudo.”

Já a atriz e produtora Joana Mendes, de 32 anos, que mora no Rio, diz que vê mais compreensão sobre a recusa de convites. “Antes a galera não respeitava: ‘Por que você não quer? Dinheiro? Te empresto! Te pago um Uber!’. Aí, você não conseguia passar.”

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