Caso Giovanni Quintella: a anestesia que adormece o corpo e inquieta a alma feminina

Terceira semana do mês de julho e, no Brasil, não se fala em outro assunto. O caso do médico anestesista que estuprou a mulher no momento mais especial de sua vida, o seu parto, causou revolta e gerou ódio coletivo nas redes sociais (o que é justificável). Novamente, o corpo feminino é colocado em “jogo” e, desta vez, a vítima sequer poderia reagir, visto que foi anestesiada para ter o seu corpo objetificado e posto ao prazer masculino, como já feito desde que “o mundo é mundo”.

O vídeo borrado, mas inteligível, começou a circular nos meios de comunicação gerando furor e comentários como “estou enojada, esse cara já deve ter feito isso com várias mulheres”, disse uma internauta e, “já chorei aqui no meio do expediente por causa disso”, completou outra. Preso em flagrante, começaram a surgir mais relatos semelhantes vinculados ao mesmo médico, o que agrava sua situação e o repudio em relação à sociedade.

Não ironicamente, as últimas semanas também foram difíceis para as mulheres, visto que os temas estupro, aborto e direito de escolha foram abordados abertamente após o caso da atriz Klara Castanho e da criança de 11 anos de Santa Catarina. Inclusive, temos um texto na coluna sobre isso: “Aborto e Adoção: a linha tênue entre o direito de escolha e o ódio ao feminino”. Uma parte da sociedade julgou a criança por ter feito o aborto e não ter seguido com a gravidez, com o argumento de que ela poderia doar e a outra parte julgou a atriz por ter continuado a gravidez e ter doado a criança. Faz sentido pra você?

Todos os tipos de violência sexual são inaceitáveis, porém, mais inaceitável ainda é se utilizar de um momento de vulnerabilidade para submeter uma mulher a práticas sexuais. É incabível ser o crime cometido por alguém que as mulheres deveriam confiar e se sentir seguras, no caso, o médico.

Poderíamos dizer que este é um caso isolado e que as mulheres não teriam que se preocupar com isso. Todavia, a violência sexual é uma prática banalizada no Brasil. Conforme dados do Fórum Brasileiro de Violência Pública, em 2021, uma mulher foi estuprada no Brasil a cada dez minutos. Infelizmente, também é um crime onde os abusadores ficam impunes na maioria das vezes.

Um caso que podemos relembrar aqui é o do Saul Klein, milionário denunciado por várias vítimas pelo crime de estupro e que continua solto, mesmo havendo relatos de mulheres que afirmaram terem sido estupradas por ele quando criança. É triste, mas é o retrato do Brasil.

O caso do anestesista é ainda mais audacioso, tendo em vista que fora praticado na frente de outros colegas de profissão. Imagina quantas outras violências ele não já praticou enquanto trabalhava em um “Hospital da Mulher”, lugar este justamente especializado em partos e ginecologia? Quantos profissionais foram cúmplices da barbárie dele?

Não é incomum ver mulheres relatando o seu medo de continuar morando no Brasil atualmente. Se eles denunciam, são perseguidas pela sociedade, se não denunciam, continuam vivendo o horror da violência sexual carregando por anos aquele peso em seus ombros e sua consciência. Para chegar ao ponto de as mulheres terem medo, foi necessário uma série de fatores, como: conivência da sociedade, banalização dos crimes contra a mulher, machismo escancarado, a idealização de que a mulher é inferior ao homem, entre outros absurdos.

Todos as pessoas, sejam homens ou mulheres, que fecharam os olhos as violências cometidas por este médico, se tornam cúmplices também. É necessário denunciar, reagir e impedir que mais pessoas se tornem vítimas de homens assim, doentios e lastimáveis.

Mateus S. Tenório, Advogado, formado em Direito pela Faculdade de Integração do Sertão – FIS, pós-graduando em Direito da Seguridade Social e em Planejamento Previdenciário.

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