Caso Miguel e a pobreza no Brasil: quando o choro pela fome ecoa e desmonta as estruturas de poder no Brasil. Será?

Há algumas semanas o jornalismo brasileiro noticiou uma situação que inquieta quem lê, desnorteia quem ouve, mas que não passa de algo normal para quem a vive. Miguel, 11 anos de idade, ao ver sua mãe chorando por não ter o que comer em casa, tem um ato de coragem e maturidade ao ligar para o 190. “— Alô? Ô seu policial… É porque aqui a gente não tem nada pra comer”. Infelizmente, a necessidade e a dor que nos toma, nos faz ter a coragem de Miguel. A dor da fome. A dor da pobreza. A dor da exclusão social.

O caso aconteceu na região metropolitana de Belo Horizonte, em 02 de agosto, mas com mais de 33 milhões de pessoas em situação de penúria no país, esta história poderia (e poderá) se repetir em qualquer rua, esquina, beco, do nosso território.

Conforme dados da consultoria britânica Newmark, o contingente de brasileiros na cifra dos milhões aumentaria 29% em 2021, em relação ao ano anterior. Já os “super-ricos”, com patrimônio acima dos US$30 milhões (cerca de R$ 157,4 milhões), devem aumentar, até 2025, em 23%. Mesmo com um grande obstáculo enfrentado, qual seja a pandemia de covid-19, o número de milionários no país segue em crescimento. O que esses estudos não revelam é o crescente acumulo das desigualdades sociais no Brasil, um dos maiores níveis do mundo.

A fome, que normalmente eclode com catástrofes naturais ou guerras começa a ter um “toque” (eufemismo) de cotidiano no Brasil. Infelizmente, algo que deveria preocupar toda a população começa a se tornar costume e “é assim mesmo”, “bola pra frente” … Até esse problema se personificar na voz de uma criança e flagelar a consciência social e política do país.

Inicialmente, o caso parecia ser de maus-tratos, assim cogitou a Polícia Militar. “190, qual é sua emergência?” “Seu policial, aqui… É porque aqui em casa não tem nada para a gente comer. Aqui, minha mãe só tem farinha e fubá para a gente viver.”, disse o menino. “Sua mãe não trabalha, não?” “Não.” “E nada para você comer então, desde cedo?” Assim, os policiais foram pessoalmente verificar do que se tratava a ocorrência, intrigados com tal situação. Chegando na casa da criança, o encontro com a dura realidade: Miguel decidiu sozinho fazer a ligação, depois de ter visto a mãe chorar. Os seus irmãos mais novos estavam reclamando de fome e a dona Célia, mãe de seis filhos, só tinha na casa fubá e água, que já vinham comendo há quatro dias.

Após isso, os policiais ajudaram a família, que também recebeu outras doações. Todavia, o Brasil é repleto de Migueis, Célias e tantos outros que não tem o que comer diariamente. Se um país deposita o futuro da nação nas crianças, como elas serão o futuro se o presente delas é incerto? Isso revela como nós fracassamos enquanto nação; como nossos governantes fracassaram enquanto líderes; como nós fracassamos enquanto pátria de “amor e de esperança”.

A menos de dois meses para as eleições, esta deveria ser a oportunidade para que possamos iniciar uma nova caminhada para o Brasil, para o nosso futuro e poder mudar o futuro de nossas crianças, cuidando do presente de vários Migueis que por aí passam fome e sofrem com o problema da desigualdade social.

É intransigente que o país se conforme com a situação de Miguel e não atue para mudar esta dura realidade de milhões de Brasileiros, tendo em vista que ficar silente diante de situações de desigualdade nos faz ser, como exprime Elis Regina, “os mesmos e vivermos como os nossos pais”. Que sejamos mais atentos à realidade e menos silentes com as mazelas que destroçam nossa sociedade.

Mateus S. Tenório, Advogado, formado em Direito pela Faculdade de Integração do Sertão – FIS, pós-graduando em Direito da Seguridade Social e em Planejamento Previdenciário.

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